O filme-álbum Black Is King, de Beyoncé, completa hoje cinco anos desde seu lançamento. Disponibilizado pela Disney+ no auge da pandemia da COVID-19, é o acompanhamento visual do disco The Lion King: The Gift, trilha paralela do live action da saga de Simba, Nala, Timão e Pumba.
Diversos estudos e análises brasileiras e internacionais identificam a presença de arquétipos que correspondem aos orixás, a narrativas de ancestralidade e símbolos rituais que atravessam todo o percurso narrativo, que serão brevemente discutidos número a número, contando toda a história da redenção de um garotinho que retorna à terra-mãe.
“Bigger”
Desde a primeira cena, a criança apresentada às águas (o menino representa Simba) remete diretamente a Iemanjá, mãe das águas na cosmologia iorubá. A imagem do bebê sendo acolhido pelo rio dialoga com ritos de iniciação e de passagem presentes em cultos afro-brasileiros como o candomblé e a umbanda, assim como o percurso de Moisés na Bíblia. No mito, Iemanjá é fonte de toda a vida e guardiã do equilíbrio emocional e espiritual. A cena inicial ressignifica o Oceano Atlântico: o que é símbolo de dor e morte ancestrais durante o tráfico transatlântico de africanos escravizados converte-se em ventre ancestral e gesto de cuidado, evocando o conceito de ayanmo, o destino escolhido antes da encarnação (AWESOMELYLUVVIE, 2020; Infinitum, UFMA, 2025).
“Find Your Way Back”
A narrativa prossegue com o deserto, espaço de esquecimento e busca. O deserto representa a perda da memória do Ori, o “deus interior” que, segundo a cosmologia iorubá, cada pessoa escolhe perante Olodumarê antes de nascer. O sol, nos cânticos tradicionais associado a Oòrùn, é testemunha silenciosa dessa travessia, iluminando o caminho de retorno ao pacto original com o próprio destino. Para a diáspora, este percurso simboliza os séculos de apagamento cultural e a necessidade urgente de reconexão com a herança ancestral (Oliveira & Euclides, 2023; AMST, 2022).
“Don’t Jealous Me” e “Scar”
O protagonista é conduzido por um macaco a um espaço de sombras, numa representação clara de Exu Elegbara, o mensageiro entre mundos e senhor das encruzilhadas. Figura central da cosmologia iorubá, Exu atua como mestre das provações: provoca, confunde e ensina por meio de desafios. A provação e a traição vividos pelo personagem funcionam como rito de passagem, etapa indispensável para o amadurecimento espiritual e para a conquista do discernimento (AWESOMELYLUVVIE, 2020; Ponte, 2020).

“Mood 4 Eva”
A figura de Oxum se impõe. Orumilá, Ifá e outros mitos narram que Oxum é senhora das águas doces, do ouro, do mel e da beleza que sustenta a vida. Foi ela, segundo as histórias, quem trouxe fertilidade à terra quando os orixás masculinos falharam. No filme, Beyoncé, trajando dourado e cercada de imagens de abundância, atualiza o trono de Oxum. Este ato é simultaneamente devoção e afirmação política: afirmar a beleza negra como sagrada e indispensável é confrontar séculos de racismo estético e cultural (VOX, 2020; CHRISTIAN CENTURY, 2020; Infinitum, UFMA, 2025).
“Ja Ara E”
“Ja Ara E” em iorubá significa “cuidado com você mesmo” ou “preste atenção”. No contexto de Black Is King, funciona como conselho ancestral transmitido ao protagonista no meio de sua jornada. A letra adverte contra a ingenuidade e a vulnerabilidade diante das armadilhas do caminho, ecoando a função de Exu como guardião das encruzilhadas e mensageiro que alerta sobre escolhas e consequências (Ponte, 2020; Infinitum, UFMA, 2025). Visualmente, a sequência combina elementos de imponência e introspecção, como tronos sombreados, olhares atentos e gestos contidos, reforçando a necessidade de prudência antes de assumir plenamente o poder. Na lógica da narrativa, esse é o momento em que o herói internaliza que força e sabedoria devem caminhar juntas. Assim, “Ja Ara E” é um lembrete de que realeza não é apenas glória, mas também vigilância constante sobre si mesmo e sobre os caminhos que se escolhe trilhar.
“Already”
Beyoncé afirma a presença da realeza negra no aqui e agora, desafiando a lógica colonial que condiciona poder e legitimidade a parâmetros brancos. A música é declaração e confirmação: o protagonista “já” é rei antes mesmo da coroação formal, pois seu ori e sua ancestralidade o legitimam. A coreografia e o figurino dialogam diretamente com a estética ritual dos terreiros afro-brasileiros e iorubás, incorporando búzios — associados à prosperidade e ao poder divinatório — e paletas de cores que remetem a Òṣun (ouro) e Yemoja (azul). A performance, que mescla dança urbana contemporânea com gestos de oferenda e invocação, traduz o conceito de axé como energia vital que circula e legitima o poder (AWESOMELYLUVVIE, 2020; Oliveira & Euclides, 2023). Ao repetir que o protagonista já é rei, a canção dissolve a ideia de que a realeza é uma meta distante, reafirmando que o poder ancestral é inato e que a identidade negra carrega, por si só, a legitimidade para governar e existir em plenitude.
“Water”
A canção retorna às águas de Iemanjá, agora como espaço de purificação e renascimento. No culto iorubá, a água tem função de “esfriar a cabeça” (tútù orí), restaurando equilíbrio e paz. No filme, a lata d’água na cabeça, o corpo molhado, a dança e o riso evocam rituais de restauração, aproximando-se de práticas afro-brasileiras. A travessia do oceano, símbolo de dor coletiva, é ressignificada como fonte de cura, onde todos mergulham para nascer de novo (CANDOMBLÉ USA, 2020; Infinitum, UFMA, 2025).
“Brown Skin Girl”
A faixa funciona como um oríkì moderno — poesia de louvor que exalta a beleza, a dignidade e a ancestralidade negra. A presença do espelho remete novamente a Oxum, que reflete nos filhos a própria beleza sagrada. Dizer o nome, cantar o louvor, reconhecer o valor do corpo e da cor é, nesse contexto, um ato de reafirmação de identidade e poder (axé), revertendo a narrativa colonial que historicamente desvalorizou a pele negra (AWESOMELYLUVVIE, 2020; Geledés, 2020). E Blue Ivy está lá!
“Keys to the Kingdom”
Em Black Is King, “Keys to the Kingdom” marca o momento em que o protagonista atravessa a fronteira final entre a preparação e o exercício pleno da realeza. As “chaves” evocam tanto a posse material do poder quanto o domínio espiritual do próprio destino, ligado ao ori, a cabeça divina que orienta a vida segundo a cosmologia iorubá. Receber as chaves é receber a autorização para abrir caminhos e governar, papel que nas tradições afro-brasileiras também é associado a Exu, guardião das encruzilhadas e senhor das passagens (Ponte, 2020; Infinitum, UFMA, 2025). A canção reforça a confiança e a legitimidade da ascensão: a realeza não é conquistada por usurpação, mas herdada por direito ancestral, confirmada pela bênção dos orixás e pela aceitação da comunidade (Oliveira & Euclides, 2023). Visualmente, a presença de coroas, tronos e gestos rituais de consagração aproxima a cena de cerimônias tradicionais de posse, nas quais o iniciado recebe não apenas ornamentos, mas também símbolos de autoridade e dever.
“Otherside”
A sequência final traz o retorno ao rio e o encontro com os ancestrais, remetendo à travessia para Orum, o mundo espiritual. O cetro dourado recuperado e a coroação do protagonista representam a restauração do Ori — o destino reencontrado e assumido. Esta conclusão reafirma a circularidade do tempo na cosmologia iorubá: cada fim é um começo, cada morte é retorno, cada retorno é continuidade (Oliveira & Euclides, 2023; Infinitum, UFMA, 2025).
“My Power”
As duas canções ampliam a presença dos orixás no palco. A coreografia, os búzios, as cores e o canto transformam a performance em ritual coletivo. Cada dançarino encarna uma divindade: Oxum (ouro), Iemanjá (azul), Oyá (vento) e Ogum (metal). A cena sugere movimento, coreografia e o momento em que o sagrado desce ao corpo, prática presente em cerimônias de candomblé e umbanda. Aqui, o corpo negro coletivo se torna altar vivo, expressão máxima da herança espiritual (AWESOMELYLUVVIE, 2020; Oliveira & Euclides, 2023).
Conclusão
Black Is King se estrutura como uma narrativa épica completa: nascido em Iemanjá, guiado e testado por Exu, coroado pela beleza de Oxum, purificado pela água, afirmado no oríkì, possuído pelos orixás e restituído ao Ori pelos ancestrais. Ao fazer isso, Beyoncé reinscreve a experiência diaspórica no espaço sagrado da cosmologia iorubá, transformando dor em rito, identidade em mito e história em eternidade, usando a imagética das igrejas negras protestantes, evocando o sincretismo (e também o apagamento).
Você encontra o áudio como The Lion King: The Gift em todas as plataformas e o vídeo Black Is King está na Disney+.
Referências
AWESOMELYLUVVIE. Black is King by Beyoncé. 2020. Disponível em: <https://awesomelyluvvie.com/2020/08/black-is-king-beyonce.html>. Acesso em: 1 ago. 2025.
CANDOMBLÉ USA. Yes, Black is King. 2020. Disponível em: <https://candombleusa.wordpress.com/2020/08/06/yes-black-is-king/>. Acesso em: 1 ago. 2025.
CHRISTIAN CENTURY. Beyoncé, Oshun, and American Religion. 2020. Disponível em: <https://www.christiancentury.org/features/beyonc-oshun-and-melting-pot-american-religion>. Acesso em: 1 ago. 2025.
GELEDÉS. Black is King: álbum visual de Beyoncé já é histórico. 2020. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/black-is-king-album-visual-de-beyonce-ja-e-historico/>. Acesso em: 1 ago. 2025.
INFINTUM (UFMA). Black is King: ressignificando a África através da arte e cultura. 2025. Disponível em: <https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/infinitum/article/download/26095/13735/85580>. Acesso em: 1 ago. 2025.
OLIVEIRA, V.; EUCLIDES, M. S. Passado-presente-passado em vias de construção de futuro: O que podemos apre(e)nder com Black is King? Sankofa (USP), 2023. Disponível em: <https://revistas.usp.br/sankofa/article/view/207536>. Acesso em: 1 ago. 2025.
PONTE JORNALISMO. Black is King: o protagonismo é nosso e a branquitude tem que entender isso. 2020. Disponível em: <https://ponte.org/artigo-black-is-king-o-protagonismo-e-nosso-e-a-branquitude-tem-que-entender-isso/>. Acesso em: 1 ago. 2025.
VOX. Beyoncé, Oshun, and Yoruba Spirituality in Black is King. 2020. Disponível em: <https://www.vox.com/culture/2020/7/31/21349403/beyonce-black-is-king-oshun-osun-yoruba-goddess>. Acesso em: 1 ago. 2025.